Os preços elevados das culturas de grãos, especialmente milho e soja, e da pecuária, estimularam alguns produtores a acelerar a colheita da mandioca no primeiro quadrimestre deste ano e optar pelo cultivo de lavouras que consideram mais lucrativas. Já a partir de junho, por conta do clima e com as expectativas de alta de preços da raiz, os produtores desaceleraram a colheita, fizeram podas para ser colhida até o final do ano. E não se pode desprezar que haverá produtores que deverão se evadir para outras culturas.
O resultado de toda esta movimentação é que haverá uma redução na área de plantio de mandioca, já a partir do ano que vem podendo os reflexos se estender até 2023. “O que temos como certeza é a diminuição de área plantada, mas a magnitude ainda não se sabe”, disse o economista Fábio Isaías Felipe, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), instituição ligada a Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).
O comentário foi feito durante sua apresentação sobre “Conjuntura e Expectativas de Mercado de Raiz, Fécula e Farinha” na reunião ordinária da Associação Brasileira de Produtores de Amido de Mandioca (ABAM), na última sexta-feira (27). Ele citou que fatores como clima, expectativas altistas de preços e incertezas quanto a área a ser implantada têm afetado a oferta de raiz nos últimos meses.
OFERTA MENOR – O economista afirmou que já é perceptível a diminuição de oferta de raiz. E os fundamentos deste comportamento são: a disponibilidade de lavouras de segundo ciclo já tem sido menor; intensificou-se a comercialização de raízes mais novas, sobretudo no primeiro semestre; clima atrasou o plantio, quedas de rendimento de amido que podem se acentuar ainda mais este ano, reduzindo os ganhos e desestimulando o produtor; e disputas por matéria-prima poderão ser ainda maiores.
Na sua apresentação, Fábio Felipe apontou que a diminuição de áreas de plantio de mandioca deve ocorrer por conta da baixa rentabilidade da atividade, preços e rentabilidade atrativa de outras atividades desde o ano passado, atraindo os produtores, o baixo preço da mandioca no período de tomada de decisão do que plantar, a redução na oferta de manivas e o clima que prejudicou o plantio.
Na reunião, o pesquisador do CEPEA foi questionado várias vezes sobre qual o percentual da redução de área plantada para a safra 2022. “A gente não tem isso (os números). O que a gente tem são conversas semanais com produtores e os dados se alternam, pois, vários fatores que acabam alterando a tomada de decisão”, disse ele, que estima que a redução deve ficar na casa dos 10%. “Mas, por favor, não tomem isso como oficial, porque não é oficial. Pata ter dados concretos é preciso colocar a botina no chão”, disse, referindo-se à necessidade de fazer pesquisas mais aprofundadas, o que está prejudicado por conta da pandemia da Covid-19.
PARANÁ – Na reunião da ABAM o economista apresentou um levantamento divulgado recentemente pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (SEAB), o maior produtor de mandioca para fins industriais. No Noroeste a redução estimada é de 3%, no Oeste 22% e no centro oeste 44%. No Estado a queda de área plantada deve ficar em 7%.
O agroindustrial João Eduardo Pasquini, vice-presidente da ABAM, lembrou da possibilidade de uma queda na qualidade da mandioca por conta das condições climáticas. Felipe concordou. “Tem sido muito comum a gente ouvir reclamações em relação a qualidade das raízes”, disse ele.
Voltando a falar sobre a tendência de preços, questionada por Pasquini, o economista sublinhou que as chuvas da semana anterior podem possibilitar a retomada da colheita, reduzindo o impacto sobre as altas de preços. “Mas ao mesmo tempo tem produtores que já sinalizam que vão ter o plantio como prioridade. Mas temos que aguardar”.
Fábio Felipe ainda citou a questão da queda de rendimento de amido, “que já se tem observado e tendem a se acentuar ainda mais a partir de setembro. O que vai ocorrer? O produtor vai entregar mediante a boa remuneração. Começamos a observar que pode acontecer um certo acréscimo no preço no sentido de equalizar estas quedas no teor de amido”, apontou.
Em resposta ao presidente da ABAM, Valter de Moura Carloto, se das lavouras que estão sendo podadas agora, quanto vai ficar para o ano que vem, o pesquisador do CEPEA disse não será um “volume não é tão alto”. Carloto foi mais incisivo: “provavelmente de janeiro a maio, junho vai ter pouca oferta de mandioca”. Felipe concordou: “É bem possível que a oferta seja baixa” e que no segundo semestre do ano que vem também não deve ser bom, com reflexos em 2023.
Finalizou apontando a necessidade de “esperar o abrandamento da pandemia para bater bota no campo e trazer respostas com mais precisão”.