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CEPEA aponta recuperação da produção de fécula e alerta que pode faltar mandioca

“Desafio é ajustar a produção com o mercado”, diz diretor da Associação Brasileira de Produtores de Amido de Mandioca

12 de julho de 2019
CEPEA aponta recuperação da produção de fécula e alerta que pode faltar mandioca

“Os números levantados pelo CEPEA mostram a evidente recuperação de produção de fécula no Brasil no ano passado – um aumento de quase 30% em relação a 2017, mantendo-se a projeção para 2019 em níveis iguais ou pouco superior a 2018. Neste primeiro semestre se evidenciou que houve um processamento um pouco maior de raízes. Devemos produzir em 2019 alguma coisa superior a 2018”.

O comentário é do agroindustrial Ivo Pierin Júnior e foi feito com base em números apresentados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), da Universidade de São Paulo (USP) aos associados da ABAM (Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca), entidade da qual é diretor. O professor e pesquisador Lucilio Rogério Aparecido Alves mostrou como a produção e comercialização de fécula se comportaram no ano passado, como está a demanda de raiz de mandioca e derivados no primeiro semestre deste ano e as perspectivas futuras.

Os números mostram que o setor está buscando se ajustar ao mercado. Para Lucilio Alves, isto decorre porque nos últimos dois anos os preços da raiz estiveram em alta por conta da falta do produto. “Isso atraiu o produtor de volta para o plantio de mandioca e agora a gente está vivendo um momento de elevada disponibilidade de raiz, tanto que parte dos produtores estão postergando a colheita, porque este volume maior de oferta reduziu preço. Só que esta redução de preço, na verdade, tende a afastar um pouco os produtores para o novo plantio e o comprador de fécula está vendo o preço cair e aí fica relativamente difícil tomar decisão porque ele pode comprar e na semana seguinte o preço cair mais”, disse o pesquisador.

            Segundo ele, é preciso buscar um ponto de equilíbrio, que, para a indústria, se faz com o estoque de produção. “Mas os estoques são pequenos. Então eles estão em dificuldade de compras, dificuldade na venda. Isso faz com que os preços oscilem de uma semana para outra. Se faltar produto o preço sobe, se sobrar o preço cai. E isso é sinal que o mercado está querendo buscar algum ponto de equilíbrio”.

            Pierin Júnior também opina sobre a busca por este ponto de equilíbrio. Segundo ele, o que vem ocorrendo que é nos últimos dois anos houve uma concentração maior no processamento da mandioca de um ciclo. “As indústrias precisam se ajustar para manter preços atrativos ao produtor para que ele mantenha a área plantada para que não falte, num futuro próximo, a raiz. Se o produtor deixar de plantar por um ano já no ano seguinte, no segundo semestre ou mais ao final do ano poderá ocorrer falta de matéria-prima e, consequentemente, alta de preços em função deste aumento de processamento de mandioca de um ciclo. Então, o trabalho de ajuste é manter as condições para que os produtores mais eficientes mantenham a sua área plantada e se possível até ampliem um pouco – amplie também esse número de produtores – interessados em produzir a mandioca necessária para abastecer o nosso mercado”.

            O pesquisador do CEPEA diz acreditar que a indústria ainda consegue se ajustar um pouco melhor em relação a preço e insiste que “a grande dificuldade do setor é como diminuir a oscilação de oferta de matéria prima, que implica em menor oscilação de preço automaticamente”. Uma das alternativas apontadas por ele é a efetivação de contrato entre a indústria e o produtor de raiz, assim como é feito entre a fecularia e seus compradores.

Ele admite que o setor já definiu num modelo de contrato entre a indústria e seu cliente, as ainda engatinha na relação com o produtor. “O estilo de contrato já está claro e está aumentando ao longo do tempo. O que não está claro é como fazer o contrato com o produtor. Que tipo de contrato que dê garantias para a indústria e dê garantia para o produtor? Isto faz 20 anos que está se discutindo o mesmo assunto”, fala o professor da USP.

Pierin Júnior aponta que no ano passado as indústrias ampliaram o número de contratos de fornecimento com seus clientes consumidores. “Isso pode propiciar, num futuro breve, contratos (com os produtores) no mesmo tempo dos contratos de fornecimento (de fécula), com preços fixados”, avalia ele.

“Isso é muito interessante para o setor, porque as indústrias podem garantir o preço e os produtores podem vender a sua matéria-prima através de um valor fixado (com antecedência, fugindo das oscilações de mercado). Esse é um exercício que deve ser praticado pela cadeia produtiva porque pode vir auxiliar no futuro em algumas diferenças na comercialização, como contratos de venda futura, onde compromissos assumidos e honrados podem propiciar um novo espaço no mercado na questão de garantias de preços num mercado futuro, como existem em outras culturas”, reforça o diretor da ABAM.

Sobre as possibilidade de falta de matéria-prima para a indústria a partir do segundo semestre de 2020 como apontaram os números do CEPEA, Pienrin diz que embora os indicativos indiquem que as indústrias aumentaram a geração de empregos no ano passado e aumentaram a produção, “precisamos manter o nível de venda e até fazendo crescer em razão desse aumento de oferta que estamos tendo”. Esse aumento da oferta de raiz é uma decorrência do aumento de área plantada e da diminuição de processamento por parte faz farinheiras em função da produção normalizada no Nordeste. Então temos ajustar a produção ao mercado. Os preços estão mais competitivos e isso pode criar consumidores que fizeram opção por amidos mais baratos, mais em conta para diminuir os custos, mas que podem voltar a utilizar a fécula em função desta queda de preços regulada pelo excedente de produção que temos no momento”. E isto forçaria o aumento da produção de fécula, provocando a recuperação de preços da raiz e estimulando o produtor a continuar plantando, afastando a possibilidade de faltar a matéria-prima para as indústrias.

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